Escrita Livre como ritual de fortalecimento pessoal
- Miriam Fidelis

- há 3 dias
- 5 min de leitura
Nos últimos anos, a tecnologia mudou completamente a nossa vida, a forma como interagimos e usamos esses recursos. Vivemos na era das notificações, dos feeds infinitos e da pressão para estar sempre online e postando. Por isso, 2026 surge como a chance de fortalecer uma busca por reconexão pessoal por meio da escrita livre.
Conversamos com poetas que utilizam o ato da escrita livre em um verdadeiro ritual potencializador, para além de recitar e competir. Para os entrevistados, a escrita é muito mais que produzir textos: é uma âncora no mundo real, um desabafo, um reencontro com o mais íntimo. Nesse tipo de escrita, o que importa não é o resultado final, mas o gesto, o momento presente e a escuta interna que surge.

DIÁLOGO COM POETAS
Para mergulhar nesse universo, conversamos com três artistas de Uberlândia e região para entender o papel da escrita livre em suas vidas.
Doce de Caju
Bióloga, trancista e multi-artista, Doce de Caju transita entre pinturas, desenhos, escritas e tranças. Sua arte é marcada pelo cuidado, pela expressão e por uma forte conexão com a ancestralidade.

Doce de Caju explica como interage com a escrita para além das poesias e comenta sobre a prática: "Eu gosto de escrever em caderno, detesto computadores até para trabalhos da faculdade. Pra escrever, eu crio um pequeno ritual de arrumar meu quarto, passar uns perfumes e me pego a escrever, tento fazer isso todo dia, e como na maioria das vezes escrevo poesia, tento não mexer no celular pra não perder o fio da meada."
Sobre a relação entre o processo criativo e seu bem-estar, a artista comentou: “Nas redes sociais ouvimos muito as vozes dos outros, isso impacta muito nosso julgamento. Escrever é uma fuga da realidade pra um encontro nu e cru comigo, onde tento ouvir e documentar minha própria voz para caso se um dia eu me perca nas vozes alheias eu tenha uma prova de mim, como uma âncora. Assim me redescubro ou me diluo, no fim me refaço.”
Ao ser questionada sobre como é entrar no espaço pessoal da escrita livre e o que ele representa, a artista compartilhou: “De fora eu deixo as máscaras, na escrita me revelo inteiramente. É meu diálogo mais pessoal comigo, pode ser até escrevendo um conto, ponho tudo de mim mesma e parece tão pessoal. Quando escrevo é como se tivesse analisando o roteiro da minha vida, em alguns pontos tento redirecionar as cenas dos meus próximos capítulos, como uma pausa, porque na hora de viver a coisa toma outro rumo, não dá tempo de pensar, só de agir.”
Day MC
Poeta, escritora, rapper e agente cultural de Araxá, Day atua como MC, ministra oficinas de escrita criativa para Slam e organiza eventos que fortalecem o movimento Hip Hop.

Day MC, não escreve pensando apenas nas competições e poesias a serem receitas. Mas usa para desabafar: “Na maioria das vezes, quando tenho oportunidade, deixo o celular distante, começo a pensar na vida, vem várias ideias. Além disso, utilizo as redes sociais como forma de estudo, uma ferramenta para auxiliar na minha escrita também, não apenas como forma de entretenimento.”
O equilíbrio entre criação e saúde mental, para Day MC, está diretamente ligado à liberdade e ao contato com o mundo ao seu redor. Ela busca na natureza não apenas inspiração, mas um espaço de presença e conexão: “Quanto mais tempo livre e contato com o mundo e com a natureza, melhor. Costumo ir pra natureza junto com meu namorado, e ficamos fazendo freestyle, criando sobre o que está acontecendo ao redor. É momento de entender e sentir o presente. É um momento de autoconhecimento”.
A artista descreve essa experiência como um encontro, um mergulho integral em quem é: “Quando pratico a escrita livre, eu encontro comigo mesma. É como entrar num local, e me ver. Não só as partes boas, mas as ruins também porque nós somos luz e trevas. É bom a gente encontrar as trevas, conhecer e aceitar para que saibamos como lidar. Nesse momento, nessa conexão a gente perde a ansiedade e as expectativas de criar algo perfeito, pois é o ego falando mais alto. É nesse local que a gente se desprende de tudo, se permite ser. Encontro paz e autoconhecimento."
Revolto
Multi-artista e Slam Master do Slam Zumbi dos Palmares, Revolto é representante da cena underground e sua arte um ato de resistência contra toda forma de opressão.

O depoimento de Revolto é um convite para conhecer o surgimento da escrita em sua vida sendo uma ferramenta íntima de expressão e como ela se transformou em poesia:
"A poesia apareceu pra mim antes de se apresentar como poesia. Veio como um papel de acalanto, escuta, desabafo. Escrevia o que sentia, o que eu vivia. Escrevia frases, palavras, não criava texto ou preocupava com a estrutura. Era uma escrita crua, simples mas muito funcional. Percebi que poderia criar história a partir das palavras e frases iniciais. A poesia estruturou tudo que eu sentia. Se tornou um cartão de visitas para o meu íntimo.
Não tenho um dia e horário para escrever, a escrita sempre aparece em momentos em que preciso me expressar, sem afetar ninguém. Criou histórias em partículas, na medida que vou vivenciando situações. As redes sociais fazem os artistas virarem influencer, obrigando a produção de conteúdos constantemente, e isso gera ansiedade para produzir e publicar. Mas eu sempre compreendi meu tempo, escrevendo eu percebo minha forma de pensar e de expressar, de forma espontânea.
Na época em que estamos, com a existência das redes sociais e ocasionando uma comparação constante. Encontrar-se, entender o sistema em que se vive, sua história e seu povo através da escrita e da arte é fortalecedor para trilhar qualquer caminho. “
Escrita Livre: Um hábito para 2026
Inspirados por essa conversa, pedimos aos artistas dicas de como incluir a escrita livre como um hábito pessoal. Confira as recomendações:

Doce de Caju: “Eu recomendo que escreva pensamentos soltos, é difícil escrever um texto conciso e explicativo sobre reflexões que costumam ser vagas. Quando comecei tive dificuldade em concluir esses pensamentos, então optei por pequenos delírios escritos para tentar construir o hábito. Com o tempo, entre um pensamento e outro comecei brincar com as essas frases mais curtas e virou poesia, daí não parei mais, o hábito se instaurou.”
Day MC: “Um conselho que deixo, é o freestyle de mão. Pegar a caneta, escrever o que vier a mente sem preocupação com o sentido ou se está rimando. No final pode sair algo bom, a partir de pensamentos aleatórios e cotidianos. Escrevendo como se fosse uma psicografia, mas de si mesmo. Além disso, reserve um lugar para si, um lugar silencioso e confortável. Ter uma conexão com si mesmo, pra conseguir se ouvir. Pois quando estamos bagunçados não conseguimos ouvir nossa voz."
Revolto: “Pra quem não sabe por onde começar a escrever, a minha dica é estudar a si próprio. Entender seus gatilhos, quando sente e os motivos. Se expressar a partir desse autoconhecimento e após esse primeiro contato, histórias podem ser contadas, sentimentos expressados.”
Pegue qualquer caderno, uma caneta, e pratique! O método é simples: escreva tudo o que vier à mente. O objetivo não é produzir literatura, mas esvaziar a mente, organizar pensamentos e se ouvir.
Em 2026, que a nossa medida de produtividade também inclua momentos de criação sem propósito comercial, e que nossa saúde mental encontre refúgio além das telas, mas no simples e revolucionário ato de criar para si.
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Entrevista por: Miriam Fidelis | Redatora Cultural Hip Hop & Cientista








