AcaraJazz cresce, vira festival e ocupa Uberlândia com três dias de música
Atualizado: 19 de set.
De 18 a 20 de setembro, evento gratuito reúne jazz, samba, música brasileira, atração argentina e uma programação que nasceu de encontros menores para agora ocupar a Arena MZNET.
Algumas ideias precisam de tempo antes de caber em um palco maior. O AcaraJazz começou assim, a partir de encontros menores entre amigos, música e acarajé, em uma combinação que parecia simples, mas já carregava uma vontade muito clara de aproximar pessoas pela cultura. Agora, essa história muda de escala.

A partir desta sexta-feira, 18 de setembro, o projeto realiza pela primeira vez uma edição em formato de festival em Uberlândia. Serão três dias de programação na Arena MZNET, no Uberlândia Shopping, com entrada gratuita e uma curadoria que atravessa jazz, samba, música instrumental e diferentes leituras da música brasileira. O encerramento ainda abre uma janela para fora do país com a presença do guitarrista argentino Ale Demogli e seu quarteto.
Mais do que aumentar a estrutura, porém, o movimento parece preservar aquilo que fez o AcaraJazz nascer. A música continua sendo ponto de partida para o encontro. Só que agora há mais palco, mais artistas, mais tempo e mais possibilidades de descobrir o que acontece quando improvisação, tradição e diferentes gerações passam a ocupar o mesmo fim de semana.
AcaraJazz 2026 transforma encontros intimistas em festival
Idealizado por Jack Will e Letícia, do Acarajé, o projeto cresceu a partir da aproximação entre música e gastronomia até chegar a este novo formato. A escolha da Arena MZNET acompanha essa expansão e permite que o AcaraJazz receba uma programação mais extensa sem abandonar a proposta de criar acesso à música instrumental e às diferentes vertentes do jazz e do samba.
Essa mudança de escala importa especialmente em uma cidade onde parte da cena se constrói justamente pela insistência dos pequenos encontros. Antes do palco maior, existe quase sempre uma roda, um bar, uma praça, uma noite em que músicos e público decidem permanecer. Transformar esse movimento em festival também significa reconhecer que existe escuta para ele.
E o AcaraJazz chega a essa primeira edição ampliada sem tentar reduzir o jazz a uma única linguagem. A programação circula por discotecagem, música instrumental, samba e ritmos brasileiros, permitindo que o gênero funcione menos como uma fronteira e mais como ponto de partida.
Sexta-feira abre a programação do AcaraJazz em Uberlândia
A primeira noite, 18 de setembro, começa com DJ Merece Uma Agulha, projeto que leva a discotecagem em vinil para dentro da programação. Depois, Amanda Lourenço e Caroline Calê apresentam Trama Três, abrindo o fim de semana com uma combinação que já dá pistas da amplitude buscada pelo festival.
A abertura funciona também como apresentação desse novo AcaraJazz. É a primeira vez que uma proposta que vinha sendo construída em escala mais íntima se espalha por três dias consecutivos. Para quem ainda não acompanhava o projeto, a sexta-feira pode ser justamente a porta de entrada.
Miles Davis, John Coltrane e Moacir Santos atravessam o sábado
O sábado concentra um dos momentos conceitualmente mais interessantes da programação. Depois de DJ Matriarka e Acarajam, Jack Will Trill apresenta um tributo a Miles Davis, John Coltrane e Moacir Santos, acompanhado pelos músicos convidados Zé Emílio Gobbo e Daniel Pezim.
Colocar esses três nomes no mesmo gesto já diz bastante. Davis e Coltrane ocupam lugares incontornáveis na história do jazz, enquanto Moacir Santos construiu uma obra em que sofisticação harmônica, ritmos afro-brasileiros e linguagem orquestral desafiam qualquer separação simples entre jazz e música brasileira. A homenagem cria, portanto, uma conversa que combina diretamente com a proposta do festival de aproximar referências sem fechar a música em caixas.
Mais tarde, Carol Panesi apresenta Festejo Brasileiro. A multi-instrumentista e compositora carioca coloca violino e rabeca no centro de um repertório autoral atravessado por choro, forró, maracatu, frevo e samba. É um trabalho em que improvisação e brasilidade aparecem como matéria de criação, não como ornamento.
E o sábado não termina quando a programação da Arena MZNET acaba.
Afterjazz leva a noite para o Dboche
A partir das 23h30, o festival continua no Dboche com o Afterjazz. O Ju Spina Samba Jazz 4teto abre essa extensão da programação, seguido por DJ Philipim & Nega Doce.
A escolha de prolongar a noite também ajuda a contar o que é o AcaraJazz. Jazz sempre teve algo de música que não respeita muito bem a ideia de horário para terminar. Existe o palco principal, mas existe também aquilo que acontece depois, quando o ambiente muda, a conversa continua e a música encontra outro espaço para circular.
Ale Demogli traz o jazz argentino para o encerramento
No domingo, 20 de setembro, DJ Zevit abre o último dia antes da apresentação do Ale Demogli 4teto, atração internacional desta edição.
Guitarrista, compositor e produtor argentino, Demogli tem mais de duas décadas de circulação internacional e uma trajetória que inclui trabalhos e encontros com músicos como Dave Liebman, Kenny Werner, Ari Hoenig e John Scofield. A presença do quarteto amplia o horizonte da programação e coloca a cena local em contato direto com outra tradição latino-americana de jazz.
O encerramento fica por conta de Samba com Karine Teles, devolvendo o festival à música brasileira e fechando três dias que caminham por territórios diferentes sem perder a ideia de encontro que deu origem ao projeto.
Festival gratuito amplia espaço para jazz e música instrumental na cidade
A entrada gratuita talvez seja um dos aspectos mais importantes dessa primeira edição. Não apenas porque facilita a chegada do público, mas porque diminui a distância entre quem já acompanha jazz e música instrumental e quem pode simplesmente aparecer por curiosidade.
O AcaraJazz 2026 também conta com incentivo do Programa Municipal de Incentivo à Cultura, o PMIC, e coloca artistas da cidade em diálogo com músicos de outras regiões e com uma atração internacional. Em vez de tratar a produção local como abertura para algo maior, a programação coloca essas presenças dentro da mesma conversa.
Para uma cena crescer, não basta que bons músicos existam. É preciso haver palco, circulação, público e continuidade. O movimento do AcaraJazz, de uma reunião mais íntima para três dias de festival, talvez seja uma pequena demonstração disso.
Quando e onde acontece o AcaraJazz 2026
O AcaraJazz 2026 acontece nesta sexta, sábado e domingo, 18, 19 e 20 de setembro, na Arena MZNET, no Uberlândia Shopping, com entrada gratuita. No sábado, a programação continua no Dboche, a partir das 23h30, com o Afterjazz.
Três dias são suficientes para ouvir muita coisa, descobrir nomes, reencontrar outros e perceber que o jazz talvez nunca tenha precisado ficar restrito a quem já conhece seus códigos. Às vezes, basta existir um lugar onde seja possível chegar, escutar e ficar.
Neste fim de semana, esse lugar atende pelo nome de AcaraJazz. E se você quer acompanhar de perto os palcos, artistas e encontros que ajudam a construir a cultura de Uberlândia, siga a Hop Television. A gente continua por aqui, prestando atenção onde a cidade faz barulho.
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Texto por: Vithor Laureano | Jornalista e Redator Cultural



