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A engrenagem do Metal: Quem faz a cena do Rock acontecer em Uberlândia?

  • Foto do escritor: Brunno Lifonso
    Brunno Lifonso
  • há 3 dias
  • 10 min de leitura

Quando os primeiros acordes distorcidos ecoam pelas casas de show do Triângulo Mineiro, o que o público vê é o resultado final de um ecossistema complexo, apaixonado e movido à resistência. A cena do Metal em Uberlândia e região vai muito além do que acontece em cima dos palcos. Para que o som continue vivo e pulsante, existe uma engrenagem fundamental composta por músicos, artistas visuais, fotógrafos, produtores de eventos e lojistas que respiram a cultura do rock autoral diariamente.


Multidão em show com mãos erguidas, luzes amarelas intensas e fumaça no palco; clima de euforia.
Descubra como vive e sobrevive o cenário do rock em Uberlândia e região | Imagem/Pexels

Mas como esse mercado sobrevive e se reinventa fora dos grandes eixos das capitais? O que mantém a chama do rock independente acesa em uma região tão plural?


Para entender a força desse cenário, mergulhamos nos bastidores da cultura do rock underground, através de conversas com personalidades que fazem a roda girar de forma independente em nossa região.


A engrenagem invisível:

O mercado por trás do som


A música não chega ao público por acaso. Entre o momento em que uma banda autoral finaliza uma composição e o instante em que o público canta junto no show, existe um trabalho árduo de curadoria, viabilização de espaços alternativos e resistência do comércio local. 


Lojistas especializados não vendem apenas camisetas e discos, eles funcionam como verdadeiros pontos de encontro e fomento da cultura. Da mesma forma, os produtores de eventos são os arquitetos que transformam a vontade de tocar em realidade técnica e estrutural.


Pessoas observam banca de camisetas de metal com estampas de Megadeth, Slayer, Metallica e Anthrax, em show de rock em Uberlândia.
O apoio da comunidade ajuda a manter as lojas física de pé | Foto: Brunno Lifonso

Em conversa com a dupla Sérgio & Vitória, responsáveis pela Painkiller Rock Store, a principal loja de artigos de rock de Uberlândia, entendemos que a venda de produtos para esse segmento vai além do capital, sendo visto pela comunidade como um recinto que resiste, onde os músicos e o público estão presentes a todo momento, seja adquirindo discos ou divulgando seus próximos shows: “A gente oferece o nosso espaço para a galera colocar um flyer, um banner de evento, para ajudar a divulgar as bandas, não somente de cover como também as autorais”, explica Sérgio.


Sérgio, um dos donos da Painkiller Rock Store, na loja física segurando uma cerveja, com discos de bandas ao fundo.
A frente da Painkiller, Sérgio é uma das grandes personalidades do cenário headbanger | Foto/Threads

Ativos desde 2019, a loja entende os obstáculos quando o assunto são e-commerces, mas demonstra firmeza sobre os diferenciais em manter um espaço físico na cidade. Atualmente, além de peças exclusivas, merchs de bandas locais, discos nacionais e importados, a Painkiller produz suas próprias camisetas personalizadas, organiza excursões para shows regionais e participa ativamente da produção de eventos em Uberlândia com o selo Udi Metal Rock, voltado para a valorização da cultura do Metal e Hard Rock em nossa região.


Para Henrique Servato, um dos produtores responsáveis pela Udi Metal Rock, cada um dos shows produzidos ao longo dos 16 anos de sua trajetória é especial. O produtor nos conta que apesar dos diversos obstáculos que podem surgir durante a preparação de uma apresentação solo ou festival, a organização adiantada é um dos seus maiores aliados, realizando um cronograma que leva cerca de 12 meses de montagem, pensado desde os músicos ao espaço locado. E afirma, quando perguntado sobre construção de line-up: “O que mais pesa nunca é preço e sim valor agregado, principalmente qualidade técnica, que levamos muito a sério e que é um dos diferenciais em nossa região”.


Cinco pessoas posam em clima de rock/metal, com camisetas estampadas, gestos de rock, em show da banda West Side em Uberlândia.
Henrique Servato ao lado da banda Wild Side (SP), banda tributo ao Motley Crue | Foto: Daniel Gringo

Mas errado é quem pensa que um cenário que resiste há anos ficaria preso somente a shows, a produção vai além e coletivos como Conluio, Guilhotina Metal Hardcore, Coletivo Cerrado Rock e a produtora Womanoise representam a força e o apoio em conjunto da subcultura, trabalhando diariamente na distribuição de músicas, criação de zines & lambes, organização de festivais e entre tantas outras formas de conexão existentes para o fomento do Rock e do Metal no Triângulo Mineiro.


Segundo Igor Wallace, produtor na Ruído Vermelho Records e músico atuante, a cena na região tem se potencializado e vem ganhando cada vez mais força nos últimos anos justamente por conta das movimentações citadas: “Bandas novas estão surgindo, os rostos têm se renovado, e a gente sabe que sangue novo é o que faz o rolê ter longevidade. Não chamo de evolução, prefiro tratar como uma continuidade do que já tem sido feito há mais de três décadas, com novas pessoas e novas tecnologias chegando para somar”, complementa.


Igor Wallace de óculos brancos e cabelo colorido no carro, segurando a fanzine "FEIO: O PUNK NAS RUAS".
Igor Wallace é ex-integrante da banda mineira de hardcore 'Restos' | Foto: Agnelo Bianchi

O produtor também aproveita para elogiar todo o corre das bandas locais na hora de produzir os famosos merchs que chamam a atenção do público no pós-show. Para ele o cuidado com a qualidade dos materiais físicos, como CD, vinil, fitas, camisetas e flyers tem chamado a sua atenção nos eventos que acompanha.


"Penso que, na era do digital, a interação direta e presencial ainda tem força decisiva. A circulação de zines, flyers impressos, adesivos e lambes chamam atenção e mostram que o que acontece é real", cita Igor Wallace sobre o que tem gerado a presença da nova geração nos shows e eventos.


Membros e integrantes do Coletivo Conluio Underground, reunidos na Praça Ismene Santos (Praça Tubal Vilela), em Uberlândia.
O coletivo de artes gráficas Conluio surgiu a pouco mas já vem mostrando seu peso | Foto: Yuri C. Rodrigues

Para ele, as jams encabeçadas por Marco André “Dedé”, produtor da Chella Produções e baterista da banda Asma, é um belo exemplo de como reunir jovens com os mais diversos gostos musicais, abrindo espaço para a divulgação de materiais, troca de ideias e apresentações livres e espontâneas de novos músicos e bandas. Essa mescla, que já é cultural em Uberlândia, ajuda a abrir portas para novos públicos, incentivando não apenas o desenvolvimento de uma comunidade como também a formação de novos grupos musicais.


Do estúdio para o palco:

O desafio autoral


Se os bastidores garantem a estrutura, são os músicos que entregam a alma da cena. Trabalhar com o Metal autoral e independente fora dos grandes eixos sempre exigiu uma dose extra de paixão e estratégia de divulgação, mas quando se fala sobre cidades interioranas a forma de lidar com toda a logística de shows e comunidade é outra. População menor significa público menor, mais conservador e com baixo investimento no desenvolvimento do cenário, levando as bandas a lidarem com mais do que um simples teste de fogo em cima do palco.


Vitória Mércia em retrato, com maquiagem verde-azulada, blazer preto e top branco, olhando sério para a câmera.
Vitória acaba de lançar seu novo trabalho ao lado da banda Unvoid | Foto: Sandro Almeida/Âncora Filmes

Um dos grandes nomes que ilustra essa realidade na região é Vitória Mércia, vocalista da banda autoral Unvoid e figura constante nos eventos locais de Metal. Para ela, manter-se relevante na cena exige muito mais do que apenas subir ao palco, a trajetória demanda investimentos contínuos em formação vocal, um cuidado meticuloso com a performance e uma comunicação muito próxima com o público que a acompanha. A luta por respeito e oportunidades é uma construção diária, como a própria artista define: "Essa conquista de espaço é constante. Nada está dado. A cada encontro com um fã, a cada show, a cada contato com os contratantes das casas de show da cidade. Isso é feito dia a dia.".


Nesse corre contínuo, segundo Vitória, os obstáculos estruturais se impõem como as barreiras mais pesadas para as bandas regionais. O alto custo para acessar grandes produtoras e distribuidoras de música obriga a maior parte dos músicos a buscar outras fontes de renda para conseguir bancar os próprios projetos e o custo de vida. "Essa infraestrutura para se criar um som é com certeza a maior barreira hoje, independente do gênero.", aponta Vitória. 



Esse gargalo se reflete também na infraestrutura física oferecida na região. Embora Uberlândia conte com locais como o Kaos Pub, Cervejaria Benedith e London Pub, que possuem as condições técnicas necessárias para suportar a potência de um som pesado, espaços como estes ainda são escassos. A artista observa que, de modo geral, as portas das casas de show se abrem com muito mais facilidade para bandas de rock comercial, deixando gêneros extremos como Metal, Hardcore e Punk com opções bastante limitadas para apresentações.


A cantora Vitória Mércia, em perfil canta ao microfone, com luzes neon azul e rosa e fundo desfocado, criando clima vibrante.
Em entrevista, a vocalista fez questão de frisar o compromisso com o treino da sua voz | Foto: PhotobyArtie

Dentro dessa dinâmica de mercado já acirrada, estar à frente de uma banda sendo mulher adiciona uma camada extra de exigência. Ainda que o cenário pós-pandemia tenha trazido um reflexo positivo — com o aumento de mulheres se sentindo mais à vontade na plateia e o surgimento de mais vocalistas e bandas femininas — a artista ressalta que ainda existe uma carência significativa de mulheres atuando nos bastidores, seja na equipe técnica, na produção ou como instrumentistas. 


“Olha, para quem já está a tanto tempo neste meio, digamos que, hoje eu já estou acostumada a ter que provar sempre mais e ter que me esforçar pra fazer sempre o melhor [...] E isso acaba sendo uma sina do próprio músico. A gente tem sempre que melhorar, tem que estar nos aperfeiçoando e acredito que no caso, por ser uma mulher isso apareça com mais proeminência.", complementa Vitória.


Vozes que ecoam: O protagonismo feminino no rock mineiro


Historicamente, o heavy metal e as vertentes mais pesadas do rock foram espaços dominados por figuras masculinas. Mas essa narrativa está mudando, e de forma irreversível e notória. Em Uberlândia e região, mulheres fortes têm tomado a frente não apenas com vocais potentes e presença de palco inquestionável, mas também na articulação de uma rede de apoio e fomento à cultura independente.


Neste cenário de quebra de paradigmas, surgem exemplos não somente como a de Vitória Mércia, mas como também de Rebeca Li, vocalista da banda Morcegula e voz ativa quando o assunto é representatividade feminina no Rock.


Mulher tatuada e sorridente posa em corredor com pôsteres, ao lado de bumbo preto com adesivo da banda MORCEGULA.
Uma curiosidade: Além de rockstar, Rebeca também é taróloga | Imagem/Instagram

Artista, mãe e empresária, Rebeca começou muito nova no cenário, com apenas 12 anos de idade, fazendo cover de Pitty com os amigos que fez pelo caminho em Uberlândia. Hoje, aos 37 anos, coleciona grandes momentos na carreira, desde a sua passagem pela banda The Virginias, o convite para assumir a bateria da Pulmão Negro e as turnes de sucesso do duo Morcegula, no qual divide ao lado de seu companheiro Henrique Badke.


Em nosso bate-papo com a artista, ela expressa sua felicidade de estar na estrada com a banda que fundou há 4 anos, mas não deixa de citar sobre os desafios que enfrentou e continua lidando no cenário que ainda prevalece com os seus preconceitos quando o assunto é mulheres em cima do palco. “Foi a sangue, suor e lágrima”, explica Rebeca, ao relembrar das cobranças excessivas, dúvidas sobre seu talento e boicotes em eventos.


Atualmente realizando shows não somente no Brasil, como também em partes da Europa, Rebeca não consegue se manter 100% em Uberlândia, mas comenta que tem conseguido acompanhar o crescente movimento das mulheres no cenário do rock regional, principalmente voltado para coletivos, com exemplo de mulheres à frente de cargos na produção dos eventos.



Segundo Li, o cenário necessita de um incentivo maior na formação de novas musicistas, que preparem as meninas desde novas a se apresentarem, compor e desenvolver a paixão por novos instrumentos, citando o projeto Rock Camp, de Curitiba, que realiza todos os anos um acampamento feminino voltado para o incentivo de produção musical, com foco em crianças e adolescentes.


“Os meninos estão desde cedo sendo incentivados e bombardeados a quererem fazer algo cultural, e isso não é uma questão de gênero, é uma questão cultural. Não adianta eu dar uma boneca, uma panela para uma menina e esperar que com 15 anos ela vá montar uma banda, porque ela não vai. Se eu começar a falar “Punk Rock não é só para o seu namorado”, ela vai pensar: “Nossa, é mesmo. Por onde eu começo?”.


Cantora tatuada e de óculos canta ao microfone em preto e branco, com expressão intensa e fundo artístico abstrato.
Rebeca conta que apesar dos inúmeros projetos, o mais especial neste momento é a Morcegula |Divulgação

A artista enxerga que o cenário ainda é precário, principalmente quando se trata de apoio a bandas autorais. Para ela, “o uberlandense ainda tem uma cabeça muito fechada” para novidades e essa negação aumenta ainda mais quando é uma mulher que está a frente da banda. A falta de apoio no momento de ser chamada para compor um line-up e o cachê baixo sem levar em consideração toda a logística da banda, é um dos pontos que também desanima Rebeca no cenário regional.


Para ajudar a movimentar o caixa da banda Morcegula, a empresária conta que preparou um “Kit Apoio”, no qual com apenas R$20 o público consegue levar pra casa um combo com flyer, adesivo e um morcego de brinquedo. A iniciativa criativa ajuda nos custos e retribui o carinho do fã com um material exclusivo.


Além disso, junto de Badke, a artista possui uma loja de camisetas estampadas — Goma Base — que produz não somente materiais para o merchandising da Morcegula, como também estampas com ilustrações voltadas para o lifestyle da cultura underground em diversos estilos.


A baterista e vocalista Rebeca Li, ao lado de Henrique Badke, integrantes da banda Morcegula.
Rebeca Li ao lado de Henrique Badke, seu companheiro de vida e banda | Imagem/Instagram

Com 25 anos de trajetória, após idas e vindas no mercado fonográfico, Rebeca Li é hoje um dos grandes nomes dentro do cenário do rock, participa ativamente de bate-papos sobre a presença feminina na música e continua com uma sagacidade e vontade de fazer acontecer mais alta do que nunca, sempre com muita história e vivência para compartilhar.


“Eu amei ter uma banda só de mulheres. É um evento que toda mulher que toca precisa fazer na vida. É uma situação diferente.” - Conta Rebeca Li, ao relembrar da fase no The Virginias, sua banda trio criada em 2017, que lhe rendeu bons momentos na estrada.



Falar sobre a resistência e o crescimento do Rock no Triângulo Mineiro é, inevitavelmente, falar sobre as diversas personalidades que constroem os palcos para que essas e outras histórias continuem sendo escritas na prática.


Longe de ser apenas um gênero musical, o Metal em nossa região se consolida como um verdadeiro movimento de sobrevivência, que apesar dos desafios, ainda mantém o senso de comunidade vivo e pulsante, assim como vimos em diversos exemplos ao longo dessa matéria. Ele é mantido por uma rede incansável de músicos, produtores, lojistas e fãs que se recusam a deixar a engrenagem parar. Cada barreira estrutural superada e enfrentada por esses profissionais reafirmam que a força do underground de Uberlândia não vive apenas dos riffs pesados sob os holofotes, mas principalmente da tribo louca e apaixonada que o sustenta fora deles. E não há prova maior da vitalidade desse ecossistema do que os encontros que materializam todo esse esforço.


O ponto de encontro: 3 anos de resistência e celebração


Um reflexo exato dessa união pôde ser visto recentemente, no dia 11 de julho, quando a Udi Metal Rock, produtora responsável por reunir e fomentar o melhor do rock em Uberlândia, celebrou 3 anos de trajetória, coroando uma caminhada que começou muito antes do próprio nome existir, encabeçada por Henrique Servato e Sérgio Willian. Confira os registros dessa noite memorável pelos ollhos de Daniel Gringo.



Realizado no Kaos Pub, com apoio da Painkiller Rock Store, o aniversário serviu como um encontro físico de gerações, profissionais do setor e fãs que provam, show após show, que o metal em Uberlândia pulsa cada vez mais forte, trazendo em seu line-up bandas tributo de grandes nomes do cenário, como: Unnamed | Slipknot Uberlândia Tributo, Metalhead Thrash (Araxá), 5.1.2 | Lamb Of God Tributo, Kore e Wild Side | Motley Crue Tributo, diretamente de São Paulo.


A HOP segue acompanhando de perto todos os eventos que fazem essa engrenagem girar dias após dia em nosso cenário e são produções como essa que cria a faísca necessária para o surgimento de novas gerações dentro do Rock, seja ele o Metal, o Punk, o Grunge ou o Nu Metal. Que o rock sempre prevaleça!



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Texto por: Brunno Lifonso | Redator e Diretor da Hop Television

Apoio: Udi Metal Rock Produções

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