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No primeiro álbum, Zonta transforma cultura, cansaço e memória em um disco de afirmação

  • Foto do escritor: Vithor Laureano
    Vithor Laureano
  • 7 de mai.
  • 8 min de leitura

A banda de Uberlândia transforma trabalho, exaustão, memória e cultura popular em uma obra que vai além da denúncia. Revolução Sonora pulsa, dança, confronta e encontra sua força no encontro entre distorção, guitarra baiana e ritmos brasileiros.


Tem disco que chega pedindo licença. Revolução Sonora não. O primeiro álbum da Zonta entra em cena como quem já sabe que não veio para fazer volume, cumprir tabela ou repetir um caminho previsível de estreia. Ele começa com suor, ruído, raiva e aperto no peito. Talvez seja justamente por isso que funcione tão bem, porque não tenta esconder o incômodo que o gerou.


Formada por João Lucas Brandão no baixo, Higor Ernandes na guitarra, Marcos Paulo Bonatti na percussão e Valdivino Neto nos vocais, a Zonta vive este novo momento também com a chegada de João Marcos na bateria.


Ao longo de nove faixas, a banda de Uberlândia constrói um trabalho que fala de exaustão, trabalho, pobreza, cultura, infância, ocupação e pertencimento sem transformar nenhuma dessas palavras em ornamento. Tudo aqui parece nascer de alguma fricção real. O que Revolução Sonora faz de mais interessante, no entanto, não está apenas no que diz, mas no modo como encontra uma linguagem muito própria para dizer.


Há ecos visíveis, e audíveis, de uma linhagem brasileira que entende o peso como matéria viva, e não como fórmula importada. Em vários momentos, o disco deixa escapar rastros de Chico Science, Nação Zumbi, BaianaSystem e dessa tradição que soube cruzar distorção, percussão, rua e identidade sem pedir desculpa por soar brasileira. O grande mérito da Zonta está justamente em não se deixar reduzir a esse espelho. As influências aparecem, sim, mas não sequestram o álbum. No fim da escuta, o que fica não é a lembrança de outras bandas. É a sensação de estar ouvindo a Zonta.


Quando o disco abre no esgotamento


Isso se percebe logo na abertura, Estresse, uma faixa que já entra dizendo a que veio. “Sem introdução / Direto ao ponto” não é só verso. É programa. A música abre o disco como quem transforma trabalho em sintoma, rotina em ruído e o corpo em campo de desgaste.


A letra é muito boa em encontrar imagens concretas para o adoecimento. O cabelo no ralo, o ranger de dente, o zumbido no ouvido, a nostalgia cinza. Mas ela cresce ainda mais quando encontra sua ironia mais afiada no discurso corporativo que maquia exploração com palavras como família, propósito e happy hour. O trabalho, aqui, não aparece só como cansaço. Aparece como uma lógica que rouba o tempo, contamina a memória e tenta convencer o sujeito de que isso tudo ainda deveria soar como privilégio.


Se Estresse abre o disco pelo corpo que já não suporta mais, Faço Arte (Mas Não Faço Dinheiro) aprofunda a ferida em outro lugar. Talvez seja uma das letras mais fortes do álbum porque não romantiza em nenhum momento a precariedade de quem cria. A faixa entende que fazer arte não suspende a violência do mundo material. O sonho segue existindo, a imaginação segue acesa, mas o dinheiro continua ditando tratamento, urgência e destino.


Capa e contracapa de Revolução Sonora, álbum da Zonta, com arte assinada por João Buson em linhas e traços onde geram visão dupla
A arte de Revolução Sonora acompanha a proposta estética do novo trabalho da Zonta, entre traços, texturas e referências à cultura popular | Arte: João Buson

Há algo de muito honesto na forma como a música se recusa a opor arte e dinheiro de maneira rasa. O bolso vazio continua ali. E o vazio do bolso também pensa, perturba, humilha e reorganiza a ética. Quando a letra pergunta, em forma de vertigem, se o sujeito copia ou cria, luta ou corre, mata ou morre, Revolução Sonora deixa claro que sua revolta não será limpa, nem simplificada.


A mesma inteligência aparece em Tio Pobre, uma das faixas mais politicamente frontais do disco. É uma música que entende muito bem a perversidade de não apenas viver na escassez, mas também ser treinado a acreditar que a culpa por ela é sua. A pobreza aqui não surge como abstração, mas como conta que não fecha, aluguel, mercado, celular parcelado e moralismo jogado no colo de quem já está apertado.


“A conta não fecha” é um daqueles refrães que dispensam adereço. É simples, direto e cruel de tão reconhecível. A faixa cresce quando ridiculariza as falsas saídas do universo financeiro, dos investimentos milagrosos e das lições de meritocracia, até chegar a uma conclusão ainda mais dura. Não é que o sujeito esteja errando a conta. É que o esquema foi feito para esmagá-lo e ainda convencê-lo de que a falha é individual.


A ZONTA TE LEVA Do sintoma ao manifesto


Até aqui, o disco já se mostrava forte. Mas uma das suas qualidades mais bonitas é não se contentar em permanecer só nesse registro da pressão e do sufoco. A partir daí, Revolução Sonora começa a abrir outras portas.


Anamnese é uma delas. Poucas músicas do álbum condensam tão bem a sensação de viver em repetição. A faixa organiza o cotidiano do trabalhador como prontuário. Já fez o dever, já pagou o aluguel, já fez a prece, já trabalhou, já cumpriu. E, mesmo assim, a vida continua aprisionada num ciclo de “comer, dormir, trabalhar, repetir”.


É uma música muito forte porque consegue ligar trabalho, consumo e tempo de vida de forma simples, quase hipnótica. Quando a voz insiste em “quero viver, não só existir”, o disco encontra uma de suas sínteses mais bonitas e mais dolorosas. Há algo de devastador em perceber que cumprir tudo o que mandam não basta para realmente viver.


Imagem editorial da banda Zonta com quatro integrantes em primeiro plano, sobre fundo claro com elementos gráficos em azul inspirados na arte do álbum Revolução Sonora. À direita, aparece a capa do disco, com ilustração em azul e branco formada por rostos sobrepostos, linhas orgânicas e textura gráfica. No topo, estão os textos “Zonta” e “Revolução Sonora”.
Zonta em imagem promocional de Revolução Sonora, álbum que combina a força visual da arte de João Buson com a identidade musical da banda | Foto: Laura Cunha / Arte: João Buson

É nesse ponto que Revolução Sonora cresce ainda mais como álbum. Porque ele não fica preso à denúncia. Ele amplia o próprio mundo. E faz isso de um jeito profundamente brasileiro.


Em A Cultura Pertence à Massa, a Zonta transforma o disco em manifesto. A música parte de uma crítica certeira ao elitismo cultural que idolatra o importado, trata a rua como atraso e tenta transformar até a identidade em mercadoria. O mais interessante é que ela não se limita a dizer que “a cultura é do povo” como slogan bonito. A faixa também mira a indústria que processa, embala e revende tudo, inclusive o sujeito, suas referências e sua necessidade de pertencimento.


É uma música de afirmação. E sua força está justamente em soar como isso. Menos explicação, mais palavra de ordem. Menos comentário, mais rito.


Um corpo brasileiro em movimento


Essa sensação de rito continua e ganha corpo em Mussurunga, talvez uma das faixas mais vivas e pulsantes do disco. Se boa parte do álbum olha para o trabalho como desgaste, aqui a resposta vem em forma de ocupação. A música parte do trabalhador espremido no busão, no ponto perdido, na catraca, no suor do dia inteiro, mas encontra sua força quando devolve esse corpo ao movimento.


Há algo de muito bonito e muito forte em versos como “ocupa o espaço que é seu / ocupa o espaço que é meu / ocupa o espaço que é nosso”. A Zonta entende que o corpo popular não existe apenas para suportar rotina e escassez. Ele também existe para ocupar, dançar, invadir, tomar de volta.


O contraste entre camarote e pipoca é dos mais eficazes do disco. E quando a pipoca invade, Revolução Sonora encontra uma de suas cenas mais vibrantes. Nesse momento, o álbum já não soa apenas como uma crítica ao mundo do trabalho. Ele soa como algo mais amplo. Um disco que quer disputar linguagem, espaço, cultura, rua e memória.


É aí que entra Entre o Céu e o Cerol, uma das músicas mais bonitas do trabalho. Em vez de tratar a infância como lugar decorativo de nostalgia, a faixa a transforma em território de formação. Brincadeiras, cantigas, roda, pique, esconde-esconde, amarelinha e cirandinha aparecem como matéria de uma rua que ensina. E ensina tudo. Corpo, regra, fuga, coragem, medo, coletividade.


A imagem do céu e do cerol é poderosa demais para passar em branco. Ela une liberdade e risco, voo e corte, infância e destino. Quando a música pergunta “quem salva a gente nesse jogo?”, ela deixa de ser só lembrança e vira questão grande demais para caber numa brincadeira. É uma faixa que dá profundidade temporal ao álbum e mostra que o trabalhador cansado, politizado e atravessado das outras músicas já foi, um dia, esse corpo descalço correndo pela rua e aprendendo, sem saber, as primeiras regras da sobrevivência.


Quando o disco endurece de novo


Depois disso, Queda de Energia, com participação da IMUNE, volta a escurecer o disco e empurra tudo para um patamar mais sombrio. É uma faixa que trabalha o colapso, o medo, a violência estrutural e a falsa tranquilidade de uma ordem que só existe porque alguém está sendo humilhado.


O peso aqui reaparece de forma mais dura, mais rasgada, mais próxima do limite. A participação encaixa muito bem porque amplia esse clima de tensão e confronto. Quando a música fala de remédio dado por quem causa a dor, de anestesia forçada e de “revolta organizada”, Revolução Sonora parece olhar de frente para o ponto em que a exaustão deixa de ser mal-estar e vira crise aberta.


E então vem Doutor, uma das melhores surpresas do disco. O samba que fecha o álbum poderia soar deslocado em mãos menos conscientes, mas aqui funciona como despedida e reinício ao mesmo tempo. É impressionante como a Zonta consegue terminar um disco tão atravessado por peso, tensão e ruído com uma música que muda de forma sem perder o tema.


O trabalho segue no centro. O adoecimento segue no centro. Mas tudo agora é reorganizado por outra cadência. Em vez de resolver o disco, Doutor parece fazer o contrário. Ele convida a voltar ao começo. Como se, ao fim da nona faixa, a escuta entendesse que ainda não terminou. Só mudou de curva.



A força de um disco que se move


E essa talvez seja a maior qualidade de Revolução Sonora. Ele é um álbum muito amarrado, mas nunca amarrado demais. Conduz sem prender. Surpreende sem parecer ansioso para provar novidade. Faz questão de manter um fio, mas sem se limitar a uma única chave. O peso encontra o baião, a guitarra baiana encontra a distorção, o batuque encontra o breakdown, o samba encontra a exaustão, e nada disso parece encaixado à força. Pelo contrário. O disco parece ir se abrindo faixa a faixa para mostrar que sua unidade não depende de repetição, mas de identidade.


E identidade, aqui, a Zonta tem.


Não uma identidade pronta, fechada ou definitiva. Ainda bem. Mas uma identidade que já se deixa ouvir. Que já faz reconhecer a banda no modo como cruza trabalho e cultura, denúncia e corpo, memória e peso, política e movimento. Revolução Sonora não é um disco perfeito, e nem precisa ser. O que ele é, e isso já vale muito, é um disco que soa necessário. Um disco em que a forma e o discurso caminham juntos. Um disco que entende que a revolução que propõe não passa só pelo que é dito, mas pelo jeito como esse dizer pulsa.


No fim, o primeiro álbum da Zonta deixa a sensação de ter encontrado algo raro. Um ponto de encontro entre influência e personalidade, entre manifesto e música viva. Revolução Sonora termina, mas não se encerra de verdade. Fica reverberando como suor que não secou, como ruído que ainda pulsa no ouvido, como uma frase dita com força demais para desaparecer na primeira escuta. Quando Doutor baixa a poeira e fecha a porta do disco em ritmo de samba, o que sobra não é silêncio. É vontade de voltar, de ouvir tudo de novo e de entender, com mais calma, tudo o que esse álbum já começou a mover.



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Texto por: Vithor Laureano | Jornalista e Redator Cultural

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