EXCLUSIVO: Com Revolução Sonora, Zonta transforma vivência, trabalho e identidade em manifesto
- Vithor Laureano
- há 2 dias
- 9 min de leitura
Prestes a lançar seu primeiro álbum, a Zonta fala sobre amadurecimento, experimentação, amizade e o desejo de transformar a música em espaço de reflexão e movimento.
Lançar um primeiro álbum nunca é só lançar músicas novas. Para a Zonta, Revolução Sonora chega como o momento em que uma trajetória começa a se enxergar com mais nitidez. Não porque a banda esteja tentando se anunciar como pronta ou definitiva, mas porque este parece ser o trabalho em que tudo o que vinha sendo construído ganha mais forma, mais direção e mais verdade.

Formada por João Lucas Brandão, no baixo, Higor Ernandes, na guitarra, Marcos Paulo Bonatti, na percussão, e Valdivino Neto, no vocal, a Zonta vive esse novo capítulo também com a chegada de João Marcos na bateria, reforçando a formação às vésperas do lançamento do primeiro disco.
Para a Hop Television, esta é uma matéria especial. Depois de acompanhar a Zonta de perto desde os primeiros shows, voltar à banda agora, no momento em que ela prepara o lançamento do primeiro álbum, é mais do que registrar a chegada de um disco. É encontrar de novo uma trajetória que cresceu no palco, no tempo, na troca e na insistência, e que agora chega a um ponto em que tudo parece soar mais consciente de si.
A expectativa existe, claro. Ela aparece carregada de entusiasmo, ansiedade, alívio e confiança. Mas, entre as respostas dos integrantes, um sentimento atravessa tudo com mais força: o orgulho. Não o orgulho inflado de quem olha para o próprio trabalho como obra intocável, mas a sensação sincera de perceber que a banda conseguiu se superar.
Neto resume isso com uma memória simples e reveladora. Depois do EP, o grupo chegou a temer não conseguir fazer algo melhor. O processo do álbum, porém, mostrou outra coisa: havia evolução, havia aprofundamento, havia uma banda amadurecendo de verdade.
O QUE REVOLUÇÃO SONORA QUER DIZER
O nome "Revolução Sonora" chama atenção de cara. Tem peso, provoca e, num primeiro contato, pode até soar pretensioso. A própria banda reconhece isso. Mas o significado que os integrantes dão ao título caminha por outro lugar. A ideia não é apresentar o disco como algo que pretende revolucionar a música em termos de técnica ou grandeza. O que está em jogo é outra coisa.
“O real significado dele não é sobre revolucionar o som, é sobre fomentar uma revolução através do som”, diz Neto.
Essa leitura ajuda a entender o que o álbum carrega. A revolução, aqui, não é troféu nem pose. Ela aparece como impulso, provocação e vontade de fazer da música um espaço que gere movimento. Higor já havia apontado algo parecido ao tratar o título mais como um chamado do que como uma afirmação sobre a própria banda.
É um conceito que se encaixa com naturalidade no momento que a Zonta descreve. Um disco que nasce do incômodo, da observação do presente e da vontade de reagir dificilmente escolheria um nome neutro. Revolução Sonora não se explica por marketing. Se explica por intenção.
O DISCO QUE NASCE DO TRABALHO E DO ESGOTAMENTO
Se há um eixo que organiza o disco antes mesmo de ele chegar por completo ao público, é a relação com o trabalho. E não de forma abstrata. A Zonta fala desse tema como quem vive suas contradições todos os dias. Os integrantes trabalham, conciliam a banda com a rotina, sentem o desgaste da semana, acompanham os debates sobre a escala 6x1, observam a precarização da vida e transformam tudo isso em canção.
Por isso, lançar Revolução Sonora no 1º de maio não soa como coincidência nem como gesto calculado. Soa como extensão do próprio disco.
João Lucas Brandão, baixista da banda, resume bem essa escolha ao dizer que lançar o álbum nessa data é “trazer essa luta em evidência”, como homenagem, resistência e também como forma de engajar os trabalhadores na busca por condições melhores de vida. Bonatti, responsável pela percussão, reforça esse mesmo eixo ao relacionar o disco à exploração da classe trabalhadora, ao cansaço excessivo e ao desejo de “viver e não só sobreviver”.
O mais interessante é que esse tema, segundo os próprios integrantes, não nasceu como um conceito previamente fechado. Ele foi surgindo enquanto as músicas apareciam, quase como consequência inevitável do momento que a banda vivia. Neto fala disso com naturalidade ao lembrar que algumas composições acabaram formando uma espécie de linha do tempo atravessada pelo estresse, pelo corpo e pelo esgotamento. Quando o grupo percebeu, já havia ali um caminho muito claro. Em vez de fugir dele, decidiu seguir.
QUANDO A ZONTA FALA DE SI PARA TOCAR O OUTRO
Mas Revolução Sonora não parece se resumir a um disco de denúncia. O material ganha ainda mais força justamente porque a Zonta não fala apenas sobre estruturas e sistema. Ela fala sobre si. Sobre o próprio cotidiano, as próprias memórias e as próprias angústias.
Esse movimento aparece com força nas respostas de Neto e João. Há uma percepção bonita de que, neste álbum, a banda passou a falar menos “do outro” e mais “de nós”. Não para se fechar numa intimidade exclusiva, mas para entender que, quanto mais fundo se desce na experiência real, maior é a chance de tocar alguém de verdade.
“A gente quis falar mais sobre a gente”, diz Neto. “É sobre nós, e se alguém se identificar, legal demais.”

Esse deslocamento muda o tom da obra. Em vez de comentar o mundo de fora, a Zonta parece falar de dentro dele. E isso abre espaço para um disco mais vivo, mais humano e mais próximo.
Ao mesmo tempo, esse “nós” não se limita ao presente. Ele puxa memória, infância, formação e território. Neto cita faixas como Entre o céu e o cerol, ligada às brincadeiras de infância e à forma como essas experiências moldam o caráter, e fala também da presença de lembranças mais diretamente associadas à história de Higor. O guitarrista relembra a vivência em Coroa Vermelha, em Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, e como referências que antes pareciam distantes hoje voltam como parte decisiva da escuta e da criação.
A BRASILIDADE QUE MOLDA O SOM
Se existe um ponto em que a Zonta parece especialmente consciente neste disco, é na forma como trata a brasilidade. A banda não quer apenas parecer brasileira, nem adicionar elementos nacionais como detalhe decorativo. O que aparece nas falas dos integrantes é uma tentativa de construir uma linguagem em que essas referências façam sentido de forma orgânica, estrutural e viva.
Higor fala em pagodão, frevo, samba, baião, axé e samba-reggae como parte da ampliação de repertório que atravessa o álbum, sem que a banda abandone o peso, a guitarra baiana e a identidade que já vinha construindo. Para ele, trata-se menos de continuidade e mais de evolução.

Neto vai por linha parecida ao dizer que a mistura sempre esteve na essência da Zonta. A diferença é que agora ela aparece de forma mais forte e mais assumida. Mas sempre com um cuidado central: não soar forçada. Como ele mesmo pontua, não faria sentido “enfiar um pandeiro” numa música só para afirmar uma brasilidade artificial.
Bonatti reforça esse raciocínio ao dizer que a essência da banda está muito mais na mensagem que ela quer passar do que em um gênero musical fixo. Talvez seja justamente por isso que a experimentação não ameaça a identidade da Zonta. Ela ajuda a revelá-la.
O PROCESSO QUE FORTALECEU A BANDA
Outro ponto que enriquece muito a história de Revolução Sonora é a forma como a banda fala do próprio processo. Não há glamourização exagerada, mas há um cuidado evidente. Neto descreve a construção do álbum como algo feito com “amorzinho”, e isso não soa pequeno. Soa preciso.
As músicas nasceram de experimentação, troca, escuta, tentativa e erro. João fala da necessidade de afunilar ideias malucas até chegar em algo que preserve a verdade da banda. Neto aponta para um processo mais equilibrado entre liberdade e objetividade. E os dois tocam num ponto essencial: a Zonta amadureceu também porque seus integrantes amadureceram juntos.

Se no começo a banda ainda estava se formando como relação, hoje existe mais intimidade, mais cumplicidade e mais liberdade para dizer o que funciona e o que não funciona. Esse detalhe muda tudo. Um disco pode até nascer de técnica, repertório e ensaio, mas também nasce do ambiente em que essas coisas são compartilhadas.
João resume isso muito bem ao falar do verbo que a banda usa internamente para o próprio processo: “zontear” a música. É um jeito quase afetivo de nomear esse trabalho de testar, mexer, transformar e fazer a canção passar pela identidade do grupo até encontrar sua forma.
O PAPEL DE ANDRÉ T. E A PRODUÇÃO DO DISCO
A presença de André T. na produção aparece como outro fator decisivo nesse amadurecimento. Higor já havia destacado a importância da escolha do produtor, especialmente pela experiência dele com percussão e com referências ligadas à musicalidade baiana, algo que ajudou a banda a encontrar melhor o equilíbrio entre peso e brasilidade.

Bonatti aponta para o mesmo movimento ao relacionar essa escolha a uma entrega mais profissional e a uma sonoridade mais rica em ritmos, instrumentos e arranjos.
Neto acrescenta uma camada importante a esse retrato: para ele, o mais marcante foi o fato de André ter sido decisivo sem tomar o disco para si. As músicas já chegaram com guias muito fechadas, e o produtor ajudou a ampliar, amadurecer e iluminar o material sem desmontar a identidade da banda. Isso, para a Zonta, fez toda a diferença. Houve aprendizado, houve troca, houve repertório, mas sem que o grupo deixasse de se reconhecer no resultado.
QUANDO A PAUSA NOS SHOWS PRIORIZOU O CRIATIVO
Outro aspecto interessante do processo é a pausa nos shows. Nas falas dos integrantes, isso aparece não apenas como consequência da correria da vida adulta, mas também como escolha. A banda sentiu falta do palco, pensou em voltar antes, cogitou reorganizar repertório e buscar apresentações, mas entendeu que o álbum exigia foco total.
Neto fala disso com franqueza ao admitir que houve saudade de tocar, mas também a consciência de que dispersar energia naquele momento poderia comprometer a conclusão do disco. João vai na mesma linha ao dizer que, sem esse tempo de respiro, talvez a Zonta nem tivesse condições de pensar de forma criativa para fazer o álbum.
Isso amplia ainda mais o peso do que Revolução Sonora representa. Não é só um disco novo. É um trabalho protegido no tempo, escolhido como prioridade, construído com atenção num momento em que seria muito fácil dispersar.
A EXPECTATIVA DA BANDA PARA O LANÇAMENTO
Mesmo com toda a carga conceitual e emocional que o disco carrega, a banda parece chegar ao lançamento sem excesso de pose. Há ambição, claro. Os integrantes falam em mais alcance, mais público, mais palco e mais circulação. Mas também há uma serenidade bonita nas respostas, como se o maior compromisso já tivesse sido cumprido: fazer um disco que eles mesmos querem ouvir.
João deseja que o público encontre ali algo capaz de provocar reflexão e transformação, mas também prazer, diversão e identificação. Neto fala em estar “coraçãozinho aberto”, curioso para ver como as pessoas vão reagir, mas sem se deixar dominar pela pressão. E Bonatti expressa uma expectativa parecida ao dizer que quer sentir que houve comunicação real entre banda e ouvinte, que a mensagem foi compreendida à maneira de cada um.
Talvez por isso uma das falas mais fortes seja também uma das mais simples. Quando perguntado sobre o que gostaria que o público percebesse logo na primeira escuta, João responde: “Se a gente se juntar, dá pra fazer uma grande bagunça”.
Há muita coisa nessa frase. Tem humor, manifesto, desordem criativa, política e desejo de encontro. E talvez ela resuma bem o espírito de Revolução Sonora antes mesmo de o disco chegar inteiro aos ouvidos do público.
O QUE ESPERAR DE REVOLUÇÃO SONORA
Antes de qualquer análise faixa a faixa, o que a Zonta entrega agora é um gesto claro de posicionamento. Revolução Sonora surge como um disco atravessado por amizade, trabalho, memória, incômodo, descoberta e vontade de transformação. Um álbum que parece menos interessado em provar algo ao mercado e mais disposto a devolver ao mundo uma experiência vivida com coragem, mistura e verdade.
Para quem acompanha a banda de perto, este lançamento carrega um peso ainda maior. Existe algo de muito bonito em ver um grupo que cresceu no palco, no encontro e na insistência chegar ao primeiro disco com mais consciência de si, mais apetite criativo e mais clareza sobre o que quer dizer. É justamente por isso que esta matéria existe agora: como registro de um instante em que expectativa, história e identidade se cruzam.
O play completo ainda vai chegar. E, quando chegar, a conversa muda de lugar. A expectativa vira escuta. A Hop Television volta a Revolução Sonora em review, mergulhando no que a Zonta construiu neste novo capítulo.
Até lá, fica o convite para acompanhar a banda de perto, seguir a Zonta, seguir a Hop Television e voltar quando o disco estiver no mundo. Porque, se este primeiro movimento já aponta a força do que está por vir, o que vem depois promete não só ampliar a trajetória da banda, mas também marcar quem topar entrar nessa escuta.
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Texto por: Vithor Laureano | Jornalista & Redator Cultural



