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Gabriel Chagaz cruza rap, guitarras e revolta política em “Maio de 21”

Foto do escritor: Vithor Laureano
Vithor Laureano
há 11 minutos
7 min de leitura

Lançada em setembro, faixa do cearense radicado em Uberlândia transforma as inquietações da pandemia em um rap de protesto que aproxima referências nordestinas, crítica social e experimentação musical.


Uma música escrita em 2021, em um dos períodos mais sufocantes da pandemia, poderia chegar a 2026 como um registro de algo que ficou para trás. Não é bem o que acontece em Maio de 21. No terceiro single de Gabriel Chagaz, a indignação de quem perdeu o emprego em meio à crise sanitária ganha a cadência do rap, versos que não economizam nas críticas e guitarras que ajudam a construir uma identidade musical para além das fronteiras do hip-hop.


Dois homens em sofá; um usa máscara de porco e camisa listrada, outro camiseta com cannabis, em sala simples e sombria.
A revolta de Chagaz transformou indignação em música e vídeoclipe | Lucas Orsini/Divulgação

Cearense radicado em Uberlândia, Gabriel escreveu a canção depois de uma demissão inesperada, enquanto o Brasil acumulava mortes por Covid-19, o desemprego atingia níveis recordes e o governo de Jair Bolsonaro enfrentava críticas pela condução da pandemia. O que começou como uma reação pessoal acabou se transformando numa composição que questiona relações de trabalho, desigualdade, autoritarismo e a maneira como vidas podem ser tratadas como descartáveis.


Lançada oficialmente em 11 de setembro de 2026, Maio de 21 também ganhou o primeiro videoclipe da carreira do artista. Mas o que torna a faixa interessante não é apenas a quantidade de assuntos que ela aborda. É perceber como Gabriel procura dar uma forma musical própria a essa revolta, combinando referências que vão de Don L e Gorillaz a Caetano Veloso e Pink Floyd.


Entre o rap e as raízes nordestinas, Gabriel Chagaz procura seu próprio som


Com aproximadamente 3 minutos e 45 segundos, Maio de 21 parte de uma estrutura ligada ao hip-hop, mas encontra nas guitarras um dos elementos que mais particularizam sua proposta. A presença de Lucas Dantas no instrumento ajuda a aproximar a batida do rap de sonoridades nordestinas, criando um diálogo interessante com a origem cearense do compositor.


Essa mistura é uma das qualidades do trabalho. A guitarra não precisa transformar a faixa em rock, assim como as referências regionais não precisam aparecer como uma citação literal de baião, forró ou qualquer outro gênero. O que chama atenção é a possibilidade de reconhecer outras matrizes musicais dentro de uma composição que mantém o rap como linguagem principal.


Há algo de significativo nisso para um artista que saiu do Ceará e constrói sua trajetória no Triângulo Mineiro. A referência ao Cerrado que aparece na letra também ajuda a situar essa experiência. Gabriel não parece interessado em escolher entre os lugares que atravessam sua história, mas em encontrar uma sonoridade na qual eles possam conviver.


Close-up de homem de cabelo longo e cavanhaque, de regata branca, olhando sério em fundo escuro.
O ano de 2026 vem sendo de realizações para o artista. Até aqui já foram 3 novos lançamentos | Lucas Orsini/Divulgação

A produção começou com o próprio músico e foi finalizada em 2024 por Gabriel Boiani, conhecido como B.O., responsável também pela mixagem e masterização. O trabalho dá continuidade a uma busca que Chagaz vem desenvolvendo em seus lançamentos: aproximar rap, trip-hop, rock progressivo e MPB sem precisar se comprometer exclusivamente com nenhuma dessas classificações.


As referências declaradas ajudam a entender o caminho. Don L, também cearense, representa uma relação particularmente interessante entre rap, experimentação e pensamento político. Gorillaz oferece outro exemplo de como gêneros diferentes podem conviver numa mesma linguagem, enquanto Caetano Veloso e Pink Floyd ampliam esse repertório para a canção brasileira e a construção de atmosferas.


A questão, porém, não é procurar em Maio de 21 um pedaço de cada um desses artistas. O melhor da faixa está justamente na tentativa de transformar essas influências em algo que faça sentido para a história que Gabriel quer contar.


Uma letra que transforma a raiva em crítica social


Na composição, a experiência individual é o ponto de partida para uma indignação coletiva. Gabriel começa pelas relações de trabalho e pela sensação de ser descartado, mas logo amplia a crítica para a meritocracia, os privilégios econômicos e as estruturas políticas que sustentam desigualdades.


O rap permite que essa passagem aconteça com naturalidade. Os versos carregam um tom ácido, por vezes agressivo, enquanto a repetição do refrão funciona como uma insistência diante de tudo aquilo que o compositor enumera. Não há muita disposição para conciliar ou amenizar o discurso. A faixa foi escrita com raiva e não tenta esconder essa condição.


Essa escolha também determina a experiência de quem escuta. Em vez de apresentar uma narrativa distante, Gabriel coloca o ouvinte diante de alguém que está tentando organizar sentimentos acumulados durante um período particularmente difícil. A letra tem algo de desabafo, mas encontra unidade ao retornar continuamente à postura de enfrentamento.


Homem vendo noticias no computador que sobressaem na imagem enquanto um homem com cabeça de porco fala próximo ao seu ouvido
Escrita durante a pandemia, Maio de 21 transforma a indignação de Gabriel Chagaz em uma composição marcada pelo protesto e pela experimentação | Lucas Orsini/Divulgação

Um dos momentos mais interessantes surge quando a composição defende os livros e o conhecimento como alternativas às armas. A passagem cria um contraste com a agressividade dos versos anteriores e acrescenta profundidade à denúncia. Depois de tanta indignação, aparece também a necessidade de compreender o mundo para conseguir transformá-lo.


É um detalhe importante porque impede que Maio de 21 seja interpretada apenas como uma sequência de acusações. Existe uma preocupação com resistência e formação crítica, algo profundamente ligado à história do rap brasileiro.


A letra reúne muitos assuntos em pouco tempo. Em determinados momentos, as denúncias se acumulam mais rapidamente do que conseguem ser desenvolvidas. Ainda assim, essa urgência faz parte da personalidade da composição. Gabriel não está tentando escrever um tratado político. Está traduzindo o que significava viver cercado por crises que pareciam não dar descanso.


A política não está apenas na letra, mas na origem da música


É impossível discutir Maio de 21 sem lembrar o Brasil que a inspirou. Em 2021, o país enfrentava uma crise sanitária devastadora, e a condução da pandemia pelo governo Bolsonaro era alvo de críticas, especialmente pelas declarações que minimizavam a gravidade da doença e pelos atrasos nas negociações para aquisição de vacinas, posteriormente examinados pela CPI da Pandemia.


Ao mesmo tempo, o desemprego alcançava 14,7% no trimestre encerrado em abril, atingindo aproximadamente 14,8 milhões de brasileiros, segundo o IBGE.


A demissão de Gabriel, portanto, aconteceu dentro de um cenário que atravessava milhões de famílias. O que para o artista foi uma experiência particular também encontrava correspondência numa realidade social marcada pela insegurança e pelo medo.


Máscara de porco vermelha com mãos cobrindo o rosto, em cenário escuro com luz neon vermelha e grafites ao fundo.
Célio D'Ávila dá a vida ao personagem 'Porco' no clipe de Maio de 21 | Lucas Orsini/Divulgação

A canção não esconde seu posicionamento contra o governo daquele período. Critica escolhas políticas, denuncia a violência e expressa preocupação com o futuro da democracia brasileira. A HOP não precisa transformar essa leitura numa falsa neutralidade: a indignação diante de mortes, desigualdades e ameaças aos direitos democráticos também faz parte da história cultural daquele momento.


Mas há uma diferença entre utilizar a música para compreender seu tempo e reduzir o lançamento a uma lista de acontecimentos políticos. Maio de 21 tem valor justamente porque essa realidade passou pela experiência de um compositor e encontrou uma linguagem artística própria.


Cinco anos depois, a obra permite voltar àquele Brasil sem depender apenas das manchetes. Há uma pessoa por trás da denúncia, uma demissão, uma mudança de perspectiva e uma música que preserva a temperatura emocional de quando foi escrita.


O videoclipe amplia a experiência de “Maio de 21”


O primeiro videoclipe oficial de Gabriel Chagaz reforça essa relação entre experiência pessoal e memória coletiva. Produzido de maneira independente, o trabalho mistura imagens de arquivo, notícias jornalísticas e cenas dramatizadas para acompanhar um personagem que enfrenta o isolamento, as pressões do trabalho remoto e a sucessão de acontecimentos que marcaram o Brasil durante a pandemia.



A proposta encontra uma boa correspondência com a música. Se a letra transforma indignação em versos, o clipe procura traduzir visualmente a sensação de acompanhar uma crise aparentemente interminável, em que as notícias atravessavam a rotina doméstica e muitas vezes tornavam impossível separar o sofrimento individual do coletivo.


Entre os elementos narrativos está a presença de Célio D’Ávila, que interpreta o personagem Porco. A figura acrescenta uma dimensão simbólica ao vídeo, aproximando a crítica social da composição de uma representação mais direta das relações de poder que Gabriel questiona.


A produção reuniu colaboradores como Lucas Orsini, na captação e direção, Rosy Ribeiro, no roteiro, e Olívia Franco, na edição e finalização. O trabalho também contou com Jemerson Carlos Bob, na iluminação e figuração. Mais do que acompanhar a divulgação do single, o videoclipe marca um passo importante na construção audiovisual da carreira de Chagaz.



A música ganhou ainda uma versão ao vivo no projeto Depois da Aula, do Diretório Acadêmico de Música da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), publicada em 25 de setembro. Nela, Gabriel aparece na voz e guitarra, acompanhado por Lucas Dantas na guitarra solo, Carlos Limaverde na bateria e Gabriel Bennet no baixo.


É outra possibilidade de conhecer a composição, agora apresentada numa formação de banda, e perceber como o trabalho do artista começa a encontrar caminhos para além das gravações de estúdio.


Um artista que começa a encontrar sua própria voz


Maio de 21 é o terceiro capítulo de uma discografia ainda em formação. Antes dele, Gabriel lançou Casa Vazia, em maio, e Selva de Pedra, em julho. Os três singles fazem parte do processo de construção de seu primeiro álbum, que pretende explorar a convivência entre diferentes gêneros e referências musicais.


O que esse lançamento revela de mais promissor é justamente a disposição de Gabriel Chagaz para experimentar sem abandonar aquilo que deseja comunicar. A música carrega uma opinião política definida, mas também apresenta escolhas de composição e produção que apontam para uma identidade própria. As guitarras acrescentam outra personalidade ao rap, as referências nordestinas dialogam com a trajetória do compositor e a letra encontra força ao partir de uma experiência vivida.


Há espaço para que essa linguagem amadureça, especialmente na maneira de equilibrar a quantidade de assuntos abordados e o desenvolvimento de cada ideia. Mas isso não diminui o que a faixa já consegue realizar. Pelo contrário, torna interessante acompanhar um artista que ainda está construindo seu repertório e parece disposto a assumir os riscos dessa procura.


Gabriel Chagaz tocando guitarra e cantando num palco com luz verde intensa e clima intimista.
O artista radicado em Uberlândia, se destaca pela sua mescla de influências musicais | Foto: Thiago Paulino

“Maio de 21” funciona porque sua indignação não soa emprestada. Ela nasce de uma experiência concreta, encontra correspondência no contexto brasileiro e ganha uma identidade musical que merece atenção para além do assunto tratado.


Não é necessário concordar com cada verso para perceber a honestidade do gesto artístico. Tampouco é preciso reduzir uma música de protesto à política para reconhecer seu valor.


Em setembro, Gabriel Chagaz colocou no mundo uma canção escrita cinco anos antes. O Brasil mudou desde então, e sua carreira também começa a encontrar novos caminhos. O interessante é perceber que aquela revolta, em vez de permanecer guardada num arquivo, ganhou guitarras, batida, voz e imagem.


E, principalmente, ganhou a possibilidade de ser escutada.



"Maio de 21" está disponível nas plataformas digitais. O público também pode assistir ao videoclipe oficial no YouTube e acompanhar os lançamentos do artista pelo perfil @chagazog, no Instagram.


A Hop Television segue de olho na produção autoral de Uberlândia e região, dando espaço para artistas que encontram na música novas maneiras de contar suas histórias e dialogar com o presente.



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Texto por: Vithor Laureano | Jornalista e Redator Cultural

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